Quem não se recorda daqueles cartazes que alguns cinemas da cidade publicitavam os seus filmes em estreia?
O Coliseu, Trindade, Batalha, S. João, Olympia, são alguns exemplos de salas que exibiam nas suas fachadas, extensos metros de pano pintado, tentando convencer o transeunde a uma sessão.
A pessa que se segue é assinada por Helena Sousa com fotografias de Timóteo e Paulo Ferreira (no final da página). Foi publicada em Dezembro 1989 na extinta JND, revista dominical do JN que actualmente tem outro nome.
Em relação ao conteúdo do texto, pois muita coisa mudou, como o título por exemplo, "Cinema abandona o cartaz - público abandona o cinema" actualmente não é assim, pois hoje em dia no meu ponto de vista e estatístico, o cinema, ou seja a exibição cinematográfica está muito melhor, isto em relação, claro está, aos Multiplex's. Nos dias de hoje ir às compras e de seguida assistir a uma sessão de cinema, já começa a ser hábito, é que fica tudo à mão, a bem dizer.
Sendo assim, aconselho que leia a crónica situando-se temporalmente no final da década de 80.
O interesse histórico neste trabalho, está no facto de muita gente ainda hoje ignorar que esses cartazes eram pintados à mão, dada a perfeição e rigor das imagens. Dá-se a conhecer também os artistas que pintavam o chamariz do cinema e do teatro. Muitos passaram centenas de vezes por esta forma de arte e nunca se aperceberam de como a Praça da Batalha por exemplo ficava mais colorida. Veja as fotos e recorde!

O Porto tem ainda ateliers onde são feitos os gigantescos cartazes. As imagens so importadas, vêm como os filmes. Mas, como não há meios técnicos para as reproduzir em tão grande escala, os tecidos brancos são pintados manualmente com tinta plástica. Verdadeiros monstros do desenho, os cartazes estão preparados para resistir à chuva e ao vento, informando a cidade distraída. A grandiosidade da forma não lhe confere, por si só, o estatuto desejado. O cinema abandona o cartaz da mesma forma que o público abandona o cinema. A grande sala de espectáculo, que pedia o cartaz para a sua entrada, progressivamente substituída pelo pequeno estúdio e a proliferação do vídeo tira tempo para o espectáculo de exterior. São tendências que fragilizam as cores da arte de reproduzir. O tipo de espectáculo que suporta o cartaz pode estar em crise mas, enquanto existir, as pinturas apelativas vão acompanhá-lo, seguindo uma já antiga tradição.
CARTAZES DE CINEMA
Só que a antiguidade desta relação não implica exclusividade. A lei do mercado não perdoa e explica a fuga destes pintores para áreas mais rendíveis, como a da publicidade. O atelier de Adriano Augusto uma resposta clara às novas exigências comerciais. Entramos no enorme e velho espaço com telhas transparentes, através das quais a luz se difunde e reflecte em pincéis desorganizados e sujas latas de tinta. Depressa perce- bemos os tempos idos dos áureos espectáculos... O teatro divorcia-se da cor do cenário e o cinema já não quer o cartaz da paixão solitária. No lugar do romantismo está a publicidade. Por todos os cantos, pequenos cartazes anunciavam novas formas de ser e de estar, ou melhor, de comercializar esse ser e esse estar. Diferenças a que o "atelier" do Sá da Bandeira se foi habituando e que hoje fa- zem parte do mais rotineiro dos quotidianos. Assim, os cartazes do S. João, Sá da Bandeira e Coliseu, são apenas peças mal pagas num mundo de propagandas.
Adriano Augusto dedica-se há 19 anos ao cartaz.
Luís Gonçalves: quarenta anos a pintar sobre o esquecimento.

Está habituado a lidar com muitos metros quadre dos de fracos financiamento! Uma pea de vinte e tal metros de comprimento pode custar menos de 20 mil escudos. "É verdade que quase não dá para pagar o trabalho, mas temos compromissos assumidos com os cinemas e não vamos
quebrá-los", diz-no Adriano Augusto. A uma curta distância deste atelier, fomos encontrar um artista perdido. Descendente de família francesa e brasileira, Luís Gonçalves foi ficando na encruzilhada deste Porto. Trabalha no quinto andar de um velho prédio da Avenida dos Aliados. Tem um discurso fragmentado pela revolta de ter acreditado num futuro diferente para o cartaz pintado à mão. Começou há quase 40 anos a trabalhar para o cinema. Suponho que gosta desta arte sem acreditar no que faz: apesar de ter uma consciência difusa de que os seus cartazes expostos no "Batalha", são os melhores da cidade. Afirma apenas, sem artifícios, que nunca gostou de um trabalho seu.

Luís Gonçalves quer que o cartaz de cinema seja valorizado porque acredita no animar da cidade através de imagens em prédios cinzentos. Mas, paradoxalmente, raciocina como se essa valorização não passasse por si.
Um jogo estranho de dedicação e desencanto.
A história do cinema começou para Luís Gonçalves quando tinha 20 anos. Queria uma profissão livre. Não percebe por que aconteceu ter sido a pintura:
«Penso que nunca sabemos bem o que nos leva a optar». «Queria ter espaço de trabalho, liberdade
de movimentos. Só que o cinema não me deu essa liberdade.
Comecei a trabalhar a um ritmo muito intensivo.

Perdi o tempo em que devia ter investido na minha formação e saí completamente dos circuitos da pintura». Agora é tarde para inverter o percurso. Mas não parece preocupado. Afinal de contas, foi apenas na profissão que errou. Gosta da vida e ri-se das suas opções:
«Eu não tenho jeito para herói. O herói não é feito de acasos. Ele é sempre um calculista. Prepara-se
e joga os seus trunfos»
. Luís Gonçalves ficou longe dos percursos heróicos, num desfasamento muito próprio. Gosta da pintura naquilo que ela tem de mais puro. Ironiza contudo o que gira à sua volta, o mundo complexo de galerias e «marketing».
A pintura está na rua. Coliseu, Batalha, S. João e Sá da Bandeira: galerias de quadros fugazes e de pintores anónimos. Primeiro, a preto e branco, depois a cores, o cartaz de cinema vai cumprindo a sua missão, indiferente marginalidade. Hà quem trabalhe para que se cumpra o ritual de colocar telas coloridas nas fachadas dos edifícios.

«Para se vencer nestes circuitos, é preciso um bom planeamento: críticos do nosso lado, gente para fazer passar a informação e, principalmente, importa saber bajular a sociedade com festas e recepções». O pintor do quinto andar sabe que este não é o seu mundo mas, mesmo assim, gostava de ter uma relação diferente com a pintura.
«Queria encontrar a minha forma
de estar. Preciso de dar liberdade ao meu pensamento para descobrir a minha criatividade». Das sete horas da manhã às cinco da tarde, Luís Gonçalves
trabalha no seu «atelier» onde pinta o «incompreendido cartaz»
São horas a fio, num local isolado onde não quer telefone e luz artificial: "Só pinto à luz do dia e sem
gente a incomodar-me». Ali sub-
merge a sua criatividade no ritmo
das reproduções precipitadas.
«Às vezes, só tenho um dia para pintar um cartaz com muitos metros quadrados.» A reprodução sistemática de imagens importadas e a urgência na apresentação do trabalho contribuíram para a desvalorização deste cartaz. No entanto, e apesar de todas as limitações em termos criativos, «não se trata de mera execução». O gráfico Jorge Afonso considera que há «uma ligação profunda à pessoa que o reproduz. Uma vez que se trata de trabalhar em grande escala, tem de haver preocupação com a expressividade das imagens». Sobre isto, Luís Gonçalves diz-nos que nem sempre tem tempo para este tipo de
preocupações: «Quando as figuras são inacabadas e sem expressão, distraio as pessoas com a cor».

In JND Dezembro 1989
Texto: Helena Sousa
Fotos: Fernando Timóteo

Actualmente o único local
onde poderão vêr estes
cartazes é na fachada do
Teatro Sá da Bandeira.


Cinema S.João - Agosto 1990

Cinema Trindade - Dezembro 1992


Cinema Batalha - Dezembro 1992
Antigo Cinema Trindade