O Porto é o berço do cinema português. Em 1996 completou-se um século sobre a data em que um portuense — Aurélio da Paz dos Reis — fez cinema em Portugal pela primeira vez, facto extraordinário se nos lembrarmos que a sessão inaugural do cinema, a nível mundial, tinha sido levada a cabo apenas alguns meses antes, pelos irmãos Lumíère, em Paris.
O pioneirismo portuense em matéria de cinema registou-se igualmente no campo da criação de espaços de exibição cinematográfica. Alguns deles eram verdadeiras obras de arte que marcaram um estilo e uma época na fisionomia e na arquitectura da cidade. O cinema no Porto e toda a cultura que lhe está associada constitui um património valioso e injustamente pouco divulgado, sobretudo entre os mais novos, e traduz, por outro lado, algumas das páginas mais estimulantes e mais originais da história da «7.° Arte» em todo o nosso país.
Vale a pena recordar alguns aspectos desse percurso de sonho e de aventura.


TUDO COMEÇOU NO «HiGH-LiFE»
Num dia de Verão do ano de 1906 os portuenses assistiram à primeira sessão de cinema de que há memória na cidade, em termos de espectáculo aberto ao público. Não foi essa
a primeira vez que no Porto se projectaram filmes, mas os
espectáculos de 1906 marcam, com certeza, o início da longa história portuense da exibição cinematográfica.
O espectáculo aconteceu na Feira de, S. Miguel, no campo onde depois nasceu a actual Rotunda da Boavista, que foto-
grafias da época mostram como sendo um espaço aberto com árvores dispersas e uma fila delas, mais alinhadas, anun-
ciando já o que seria depois a avenida em direcção ao Castelo do Queijo. O cinema, como lembram os seus primeiros
cronistas, era um espectáculo de feira, de características populares, não obstante a sedução que, desde logo, produziu em todas as camadas sociais. A primeira «sala» da Rotunda não passava de um barracão de madeira e zinco com o
nome pomposo de Salão High-Life, o suficiente para o animatógrafo dar os primeiros passos junto dos portuenses. Os
responsáveis pêlos históricos acontecimentos fílmicos da Feira de S. Miguel foram António Neves e Edmond Pascaud, dois nomes que viriam depois a marcar, até aos nossos dias, de forma incisiva, toda a caminhada da exibição cinematográfica no Porto, ao mesmo tempo que se afirmavam na divulgação do cinema como espectáculo, divertimento e veiculo de cultura.
Trata-se da Empresa Neves & Pascaud (cinemas Batalha, Trindade e, já nos nossos dias, o Olimpia e a Sala Bebé), de que foi timoneiro, durante décadas, um dos nomes de ouro da difusão do cinema em Portugal, o Dr. Luís Neves Real.
Que filmes se viam no barracão da Feira de S. Miguel em 1906? Eram «quadros» e «vistas» — recorda-o Alves Costa —
iguais aos que então corriam mundo, projectados por uma «Pathé», como se sabe a máquina pioneira no ofício. Cenas
captadas sabe-se lá onde mostravam-se em sessões contínuas, das duas da tarde até perto da meia-noite. A novidade fez as delícias dos portuenses.
Vale a pena recordar as palavras de Neves Real sobre essas históricas sessões de 1906: «Sobre terra estreme, uma fiada de bancos plebeus constituía a "geral". Seguiam-se-lhe, como tribuna de honra, sobre estrado de madeira, as filas de cadeiras a marcar uma distinção e a preservar apropriado acolhimento à "High-Life" c/o Porto que, como a alta roda de Paris, não desdenhou acorrer a extasiar-se perante as "maravilhosas vistas" que a firma Neves & Pascaud lhe oferecia à razão de 130 réis por pessoa e por sessão. Então era ainda o cinema um menino débil, apesar dos seus onze anos».
O Salão High-Life com sua cobertura de zinco esteve pouco tempo no descampado da Boavista: dois meses apenas. Transferiu-se logo para o Jardim da Cordoaria, que assim averba no seu historial a honra de ter acolhido a «sala» pioneira da exibição cinematográfica no Porto.
O Salão High-Life esteve na Cordoaria uns dois anos: em 29 de Fevereiro de 1908 foi assentar arraiais na Praça da Batalha, juntando mais uma palavra — «Novo» — ao seu já prestigiado nome. Tratava-se, no entanto, agora, de um «pictoresco edifício» (diz Alves Costa) que em 1913 tomará o nome definitivo de Cinema Batalha. O Novo Salão High-Life, apesar de se ir tornando obsoleto, não perderá a particularidade de atrair o público a um espectáculo cada vez mais popular.